Pessoas participam de protesto contra ação militar dos EUA na Venezuela, na Cidade do Cabo, África do Sul, em 16 de janeiro de 2026. (Xinhua/Wang Lei)
O "drama de abertura" de 2026 parece ter aberto a caixa de Pandora, inaugurando um ano de intensa rivalidade, caos e transformação. No entanto, as coisas se invertem quando levadas ao extremo, o poder desenfreado só leva à autodestruição. Cada ato de sabotagem feito por uma potência hegemônica apenas acelera seu próprio colapso. Cada corrente que impõe aos outros acabará piorando mais sua própria situação.
Por Shao Xia
As ações militares dos EUA contra a Venezuela podem parecer imparáveis e intimidadoras, mas, na verdade, expõem o dilema da hegemonia: aparentemente ganhar tudo, mas, no fim, perder tudo.
DESMASCARANDO A FARSA
Durante 250 anos, desde sua fundação, os Estados Unidos se apegaram a uma lógica hegemônica. Mas, no passado, ao menos se esforçavam para encontrar um pretexto: primeiro rotulando um país como "ditatorial" ou "terrorista", depois orquestrando revoluções coloridas ou ações militares e, por fim, trazendo capital para extrair e saquear.
Avançando para 2026, o mesmo roteiro continua se repetindo. Os rótulos atribuídos a Maduro ainda são "narcotraficante" e "terrorista". Mas, desta vez, os políticos americanos assumem o protagonismo e não escondem seu verdadeiro objetivo: petróleo.
Há alguns anos, os Estados Unidos alegavam negociar com outros países "a partir de uma posição de força". Agora, a retórica ficou ainda mais direta: "o mundo é governado pela força, pelo poder, pela coerção". Para os Estados Unidos, toda entidade geopolítica é um trunfo ou uma ameaça, mas nunca um verdadeiro igual.
Em um artigo que lamenta essa situação, a revista britânica The Economist pergunta: "O que acontece quando o vício não sente mais nenhuma compulsão em prestar homenagem à virtude?". Ao longo da história, países "reestruturados" à força pelos Estados Unidos muitas vezes foram mergulhados em caos e pobreza sem fim. As ondas de refugiados e as crescentes tensões regionais desencadearam uma reação em cadeia recorrente. Ao buscar uma vitória rápida desta vez, os Estados Unidos podem estar espalhando as sementes de seu próprio sofrimento prolongado.
USANDO QUESTÕES EXTERNAS PARA ENCOBRIR PROBLEMAS INTERNOS
A causa principal das transgressões dos EUA ao redor do mundo está, na verdade, dentro de suas próprias fronteiras. O marxismo sustenta que o bloco burguês dominante só consegue administrar contradições internas e construir consenso doméstico criando inimigos externos e explorando recursos estrangeiros. Essa abordagem de substituir a reforma interna pela expansão externa pode conter temporariamente as crises internas, mas apenas esconde os verdadeiros problemas da sociedade, em vez de resolvê-los.
Nos Estados Unidos, os moradores de rua precisam de comida e abrigo; os viciados em drogas precisam de reabilitação; as crianças precisam crescer livres do medo da violência armada. Infelizmente, porém, parece que ninguém se importa com as necessidades deles.
Não é surpresa que alguns argumentem que os Estados Unidos estão entrando em uma era pós-constitucional de decadência moral. Recentemente, protestos contra o ataque à Venezuela eclodiram em mais de 100 cidades americanas, juntamente com manifestações em vários locais contra a violência policial por agentes federais. Esses são os sinais mais diretos e claros de uma sociedade em crise.

Foto tirada em 8 de fevereiro de 2026 mostra cartazes com a frase "A GROENLÂNDIA NÃO ESTÁ À VENDA!" em uma janela em Nuuk, Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca. (Xinhua/Li Ying)
QUEM DEPENDE DA FORÇA, DECLINA
Como diz um provérbio chinês: a vitória temporária está na força, enquanto a vitória eterna está na integridade. A razão é simples: a hegemonia depende inerentemente do exercício da dominação sobre os outros. Mas a opressão não só esgota os recursos da própria hegemonia, como também continua criando mais inimigos, um ciclo vicioso que inevitavelmente levará ao colapso.
Hoje, a reação contra a hegemonia já é evidente. Os países do Sul Global já não se limitam a reclamar em privado de "já terem aguentado o suficiente da intimidação dos EUA", estão começando a se unir e a lutar pela autossuficiência.
Duzentos anos atrás, os Estados Unidos invocaram a Doutrina Monroe para tratar a América Latina como servos obedientes e vacas leiteiras a serem exploradas à vontade. Agora, um quarto do século 21 já passou, mas essa atitude arrogante continua. Cedo ou tarde, a América Latina se unirá em busca de força, e o incidente na Venezuela pode ser um ponto de virada.
Até mesmo os aliados de longa data dos Estados Unidos, embora não digam isso abertamente, estão enxergando com mais clareza: os Estados Unidos não passam de um valentão global e a maior fonte de caos do mundo. Seu sistema de alianças está ruindo. Por exemplo, a Groenlândia está em alerta máximo. Alguns comentaristas argumentam que novas ações imprudentes dos Estados Unidos levarão à dissolução da OTAN. Um acadêmico foi direto ao ponto: "Precisamos largar a ilusão de que os Estados Unidos e a Nova Zelândia compartilham interesses e valores comuns".
O "drama de abertura" de 2026 parece ter aberto a caixa de Pandora, inaugurando um ano de intensa rivalidade, caos e transformação. No entanto, as coisas se invertem quando levadas ao extremo, o poder desenfreado só leva à autodestruição. Cada ato de sabotagem feito por uma potência hegemônica apenas acelera seu próprio colapso. Cada corrente que impõe aos outros acabará piorando mais sua própria situação.
Podemos esperar uma profusão de eventos "rinoceronte cinza" pela frente. A "Surpresa de Outubro" americana pode se tornar uma surpresa mensal ou até diária. Mas, contanto que cada vez mais pessoas optem por abrir os olhos, se mantenham firmes e se manifestem, contanto que todos defendamos o princípio fundamental de que "o mundo não deve ser governado pela força" e respeitemos o direito internacional, por mais imprudentes que sejam essas ameaças, elas não ultrapassarão os muros da justiça.
Nota da edição: O autor é comentarista de assuntos internacionais e contribui regularmente para a Xinhua News, Global Times, China Daily e CGTN e outros.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade da autoria e não refletem necessariamente a posição da Agência de Notícias Xinhua.


