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Em meio à turbulência de 2025, economia global enfrenta dilema no crescimento sustentável

31 de dezembro de 20259 min de leitura
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Em meio à turbulência de 2025, economia global enfrenta dilema no crescimento sustentável

Foto aérea de drone tirada em 27 de dezembro de 2025 mostra navios de carga carregando e descarregando contêineres no Porto de Qingdao, na província de Shandong, no leste da China. (Foto por Yu Fangping/Xinhua)

Por Liu Bowei

Beijing, 29 dez (Xinhua) -- Com 2025 chegando ao fim, a economia global enfrentou um ano turbulento. O aumento das tarifas e práticas protecionistas dos EUA, além das persistentes tensões geopolíticas e da volatilidade dos mercados financeiros, expuseram vulnerabilidades estruturais e prejudicaram o comércio e o crescimento globais.

Iniciativas para diversificar o comércio, aumentar parcerias regionais e implementar ajustes econômicos direcionados, no entanto, fortaleceram a capacidade da economia global de resistir a ondas de choques, revelando uma resiliência que persiste mesmo em meio a profunda incerteza.

Marcada pela resiliência sob imensa pressão, a economia global enfrenta um dilema crucial, enquanto o mundo encara um imperativo urgente de se recalibrar para o crescimento futuro.

DOR COMERCIAL AUMENTA

Desde que o presidente dos EUA, Donald Trump, retornou à Casa Branca, Washington implementou uma nova rodada de medidas tarifárias unilaterais com frequência crescente, elevando a taxa média de importação dos EUA de 2,4% no início do ano para quase 18%, o nível mais alto desde a década de 1930.

Contudo, as altas tarifas não fortaleceram a competitividade industrial dos EUA nem resolveram seus problemas estruturais. Em vez disso, provocaram efeitos colaterais que reverberam muito além das fronteiras dos EUA.

No âmbito doméstico, essas repercussões são evidentes no aumento dos preços, nos custos empresariais mais elevados, na diminuição do bem-estar do consumidor e na inflação crescente, fatores que têm pesado sobre o crescimento econômico.

De acordo com um relatório divulgado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD, na sigla em inglês) no início deste mês, o crescimento dos EUA deverá desacelerar para 1,8% em 2025 e 1,5% em 2026, abaixo da média de 2,5% entre 2015 e 2019.

Na Europa, as novas tarifas americanas sobre aço, alumínio e automóveis reduziram as margens da cadeia de suprimentos e prejudicaram a competitividade, levando as empresas a adiar investimentos e repensar planos de produção. O crescimento da UE, projetado pela UNCTAD, é de modestos 1,3% em 2025.

Na Ásia, o Japão também sentiu o impacto, com as exportações para os Estados Unidos caindo ano a ano por sete meses consecutivos desde abril, à medida que as tarifas americanas sobre automóveis continuam dificultando os embarques. Um déficit comercial crescente e um iene desvalorizado agravaram ainda mais as pressões sobre a economia japonesa.

A tarifa gerou muita incerteza, que impacta não apenas as importações que os Estados Unidos fazem de diferentes partes do mundo, mas também o crescimento do comércio global, disse Luz Maria de la Mora, diretora da Divisão de Comércio Internacional e Commodities da UNCTAD.

"Esse tipo de incerteza geralmente impacta os investidores, os parceiros comerciais e também o funcionamento das cadeias de suprimentos", disse ela.

Corroborando suas observações, Luis Antonio Paulino, diretor do Instituto Confúcio da Universidade Estadual Paulista (UNESP), no Brasil, disse: "A incerteza comercial leva as empresas multinacionais a adiarem ou cancelarem planos de investimento, reduzindo os fluxos de investimento estrangeiro direto. Tarifas unilaterais também aumentam as disputas comerciais e enfraquecem o sistema multilateral de comércio baseado em regras".

Foto tirada em 2 de dezembro de 2025 mostra Casa Branca, em Washington, D.C., Estados Unidos. (Xinhua/Hu Yousong)

Com o maior importador de mercadorias do mundo aumentando unilateralmente as tarifas, os países afetados muitas vezes não têm opções senão responder da mesma forma, arriscando uma espiral descendente no comércio global.

"Vemos cada vez mais países adotando medidas protecionistas. E a adoção dessas medidas significa um processo lento para a economia de muitos países. Portanto, a guerra tarifária iniciada pelos Estados Unidos prejudicou seriamente o sistema de comércio moderno e multilateral", disse Bernard Dewit, presidente da Câmara de Comércio Belgo-chinesa.

RESILIÊNCIA EM MEIO À INCERTEZA

Ainda assim, o ano se mostrou um pouco menos sombrio do que o esperado. O comércio global continuou crescendo, o desemprego permaneceu baixo na maioria das regiões e os mercados de ações registraram mais um ano de ganhos sólidos.

Em outubro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou para cima sua previsão de crescimento global para 2025, para 3,2%, 0,2 ponto percentual acima da previsão de julho.

As revisões foram em parte devidas à antecipação de compras por parte dos importadores em resposta às tarifas americanas, à rápida reorganização das cadeias de suprimentos, às negociações comerciais e aos esforços gerais dos países para manter o sistema de comércio global aberto, observou o FMI em seu relatório.

Em um artigo recente, o Banco Mundial observou que os mercados emergentes e as economias em desenvolvimento, que agora representam quase 40% do comércio global, fortaleceram os laços regionais e assinaram novos acordos, ajudando a compensar o impacto negativo das medidas restritivas ao comércio.

"As economias de hoje são muito mais diversificadas, de modo que nenhum país depende de apenas um ou dois mercados", disse à Xinhua, Andrés Angulo, professor de relações internacionais e da Ásia-Pacífico da Academia de Humanismo Cristão da Universidade do Chile.

"Na América Latina, os países diversificam por meio de acordos e investimentos, visando múltiplos mercados em vez de depender de um único", acrescentou ele.

A cooperação econômica regional ganhou impulso em 2025, particularmente entre as nações do Sul Global. A entrada da Indonésia no BRICS, juntamente com a expansão da cooperação comercial e da cadeia de suprimentos no âmbito do Acordo de Livre Comércio China-ASEAN 3.0 e o fortalecimento da implementação da Área de Livre Comércio Continental Africana, destacam-se como um conjunto de pontos-chave. Esses desenvolvimentos ressaltam uma disposição mais ampla entre os países de buscar estabilidade por meio de um engajamento econômico mais coordenado.

China e ASEAN assinam Protocolo de Atualização da Área de Livre Comércio 3.0 em Kuala Lumpur, Malásia, em 28 de outubro de 2025. (Xinhua/Xing Guangli)

De acordo com dados da UNCTAD, o comércio global deverá crescer cerca de 7% em 2025, impulsionado pela Ásia Oriental, África e comércio Sul-Sul. O comércio Sul-Sul, por si só, se expandiu em aproximadamente 8%.

"Estamos vendo que o comércio entre os países do Sul tem o dobro da taxa de crescimento dos países desenvolvidos", disse De la Mora, acrescentando que a China, um importante país do Sul Global e uma das maiores economias do mundo, é um dos principais motores de crescimento do comércio global e da economia em geral.

A China está realmente impulsionando muitas das atividades em todo o mundo, disse o especialista, destacando o papel do país como uma força estabilizadora e um centro de oportunidades globais compartilhadas.

Ao elogiar o tratamento tarifário zero concedido pela China a 100% das linhas tarifárias de 53 países africanos com os quais mantém relações diplomáticas, De la Mora disse: "Dinâmicas importantes estão ocorrendo em termos de como garantir que o comércio continue sendo um motor de crescimento".

MOMENTO DE RECALIBRAÇÃO

"O que estamos vendo é uma resiliência demonstrável no mundo", disse a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva. "Mas também estamos dizendo que é um momento de excepcional incerteza e os riscos de queda ainda dominam as previsões. Portanto, fiquem atentos, não se acomodem demais".

Conforme 2026 se aproxima, muitos especialistas esperam que o crescimento global seja amplamente semelhante ao de 2025, embora em uma economia global cada vez mais fragmentada. Pressões inflacionárias, taxas de juros elevadas nas economias avançadas e tensões geopolíticas persistentes devem pesar sobre a expansão. Enquanto isso, uma tendência crescente em direção a novas tecnologias e medidas de estímulo direcionadas em muitas economias provavelmente sustentarão a estabilidade, com a China permanecendo como um pilar fundamental.

"Se as tendências atuais persistirem, é provável que os atritos comerciais continuem elevados em 2026", disse à Xinhua, Tobias Alando, diretor-executivo da Associação de Fabricantes do Quênia, alertando que o crescimento global no próximo ano poderá ficar abaixo dos níveis de 2025 em meio às tarifas americanas, ao aumento da dívida, às condições financeiras mais restritivas e à incerteza política.

Essa visão ecoa a previsão mais recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que projeta uma desaceleração do crescimento do PIB global de 3,2% em 2025 para 2,9% em 2026.

Nesse contexto, alguns analistas descrevem 2026 como um ano de "esperar para ver", não apenas por causa dos conflitos geopolíticos não resolvidos, mas também porque a economia global está em um dilema sobre como responder à crescente fragmentação.

Stephen Ndegwa, professor de relações internacionais da Universidade Internacional dos Estados Unidos-África, disse que as perspectivas de crescimento global dependerão em grande parte da manutenção da paz nos principais pontos de tensão geopolítica e que as tensões persistentes continuarão mantendo os investidores cautelosos.

Conforme a economia global atravessa esse período de hesitação, especialistas apontaram que as medidas americanas baseadas no unilateralismo deverão revelar cada vez mais suas limitações, levando os investidores a reavaliarem suas estratégias de longo prazo. E a China, com sua abertura de alto padrão e seu compromisso com a proteção do livre comércio e da globalização econômica, está proporcionando às economias de todo o mundo novas oportunidades de crescimento e modernização industrial, reforçando a tendência para estratégias mais previsíveis e cooperativas.

Foto aérea de drone tirada em 14 de dezembro de 2025 mostra base de produção de uma empresa de indústria pesada de transporte marítimo na zona de desenvolvimento industrial de alta tecnologia de Jiangdu, na província de Jiangsu, no leste da China. (Foto por Ren Fei/Xinhua)

"Após o choque das tarifas americanas, países ao redor do mundo começaram a se recuperar, ajustar seus rumos e superar esse impacto", disse Mostafa Ibrahim, vice-presidente do Conselho Empresarial Sino-egípcio. "Essas pressões serão um incentivo adicional para que os países busquem soluções que não dependam dos Estados Unidos, especialmente seus aliados e países em desenvolvimento".