Para onde caminha a política britânica após a saída de Starmer

24 de junho de 20266 min de leitura
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Para onde caminha a política britânica após a saída de Starmer

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, discursa em frente ao número 10 de Downing Street, em Londres, Reino Unido, em 22 de junho de 2026. (Xinhua)

A renúncia de Starmer abre caminho para uma disputa pela liderança do Partido Trabalhista; Andy Burnham é o favorito para sucedê-lo e herdar um governo sob pressão devido a questões como migração, energia e a ascensão eleitoral do partido Reform UK em nível nacional.

Por Zhao Jiasong

Londres, 22 jun (Xinhua) -- O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, anunciou em um discurso em frente ao número 10 de Downing Street, na segunda-feira, que renunciaria à liderança do Partido Trabalhista no poder, embora permaneça como primeiro-ministro até que seu sucessor seja escolhido.

Sua renúncia ocorre após uma rápida perda de apoio dentro do Partido Trabalhista, acelerada pelo retorno ao Parlamento de Andy Burnham, figura agora amplamente considerada a favorita para substituí-lo.

Por que Starmer renunciou agora? Como será a transição de poder? Quem tem mais chances de se tornar o próximo primeiro-ministro britânico?

O QUE ACONTECEU?

Starmer assumiu o cargo em Downing Street em 5 de julho de 2024, após levar o Partido Trabalhista a uma vitória esmagadora, conquistando 411 cadeiras na Câmara dos Comuns e encerrando 14 anos de governo conservador.

Ele fez campanha com a promessa de retomar o crescimento econômico, melhorar os serviços públicos, conter a migração irregular e restaurar a estabilidade após anos de turbulência política. No entanto, menos de dois anos depois, ele perdeu a confiança de uma parte substancial de seu próprio partido.

Sua posição foi enfraquecida por críticas à forma como o governo lidava com as políticas de migração e energia, além da controvérsia contínua em torno de Peter Mandelson, ex-embaixador britânico nos Estados Unidos, e suas ligações com o falecido financista Jeffrey Epstein.

A pressão interna no Partido Trabalhista também vinha crescendo há meses.

O momento decisivo ocorreu na sexta-feira, quando Burnham venceu uma eleição parlamentar parcial em Makerfield e retornou à Câmara dos Comuns. Sua vitória proporcionou a plataforma necessária para lançar um desafio formal à liderança do Partido Trabalhista e foi amplamente vista como o gatilho imediato para a saída de Starmer.

Após a vitória de Burnham, as pressões para que Starmer deixasse o cargo aumentaram.

A secretária de Transportes, Heidi Alexander, pediu que ele definisse um cronograma para sua saída. A secretária do Interior, Shabana Mahmood, e outros ministros de alto escalão já haviam feito exigências semelhantes anteriormente. O canal britânico Sky News noticiou no domingo que a secretária das Relações Exteriores, Yvette Cooper, também disse a Starmer, em particular, para renunciar.

O jornal britânico Financial Times informou no domingo que mais de 100 parlamentares trabalhistas, um quarto da bancada parlamentar do partido, pediram renúncia de Starmer.

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e sua esposa saem do número 10 de Downing Street, em Londres, Reino Unido, em 22 de junho de 2026. (Xinhua)

O QUE VEM A SEGUIR?

Em seu discurso de renúncia, Starmer disse que solicitou ao Comitê Executivo Nacional do Partido Trabalhista que elaborasse um cronograma para a eleição da liderança. As indicações de candidaturas serão abertas em 9 de julho. Espera-se que o processo seja concluído antes do recesso de verão do Parlamento, o que significa que um novo líder trabalhista estará no cargo antes do retorno das atividades parlamentares em setembro.

Segundo as regras atuais do Partido Trabalhista, um candidato deve, primeiramente, obter indicações de pelo menos 20% dos parlamentares trabalhistas. Com base na atual força do partido na Câmara dos Comuns, isso equivale a pelo menos 81 parlamentares. Os candidatos também devem ser indicados por “pelo menos três entidades afiliadas ao Partido Trabalhista (sendo que pelo menos duas devem ser sindicatos), e o número total de membros dessas entidades indicadoras deve corresponder a pelo menos 5% do total de membros afiliados”, segundo as normas.

Caso mais de um candidato atinja o limite necessário de indicações, os membros do partido e os apoiadores afiliados elegíveis votarão para escolher o novo líder.

Uma vez eleito o sucessor, Starmer visitará formalmente o Palácio de Buckingham para apresentar sua renúncia ao Rei Charles III. O Rei então convidará a pessoa com maior probabilidade de contar com a confiança da Câmara dos Comuns para formar um governo.

Como o Partido Trabalhista ainda detém a maioria no Parlamento, não se espera que o Rei desempenhe qualquer papel na definição do resultado da disputa interna do partido. O novo líder do Partido Trabalhista seria normalmente nomeado primeiro-ministro de imediato e, então, começaria a formar um novo gabinete.

Segundo o Institute for Government, um think tank britânico, a mudança de primeiro-ministro não exige a realização de eleições gerais. O próximo líder trabalhista poderia continuar governando até o fim da atual legislatura ou optar por convocar eleições antecipadas.

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, abraça sua esposa em Londres, Reino Unido, em 22 de junho de 2026. (Xinhua)

QUEM SERÁ O PRÓXIMO?

Burnham é claramente o favorito.

Ex-ministro do gabinete do antigo primeiro-ministro Gordon Brown, ele já concorreu duas vezes à liderança do Partido Trabalhista e atua como prefeito da Grande Manchester desde 2017.

A vitória de Burnham em Makerfield, onde derrotou por ampla margem o candidato do Reform UK, um partido de extrema-direita, reforçou o argumento de seus apoiadores de que ele está em melhor posição do que Starmer para reconquistar os eleitores da classe trabalhadora e conter o avanço do Reform UK.

Stuart Wilks-Heeg, especialista em eleições da Universidade de Liverpool, disse à Xinhua que é esperado que Burnham se torne o próximo primeiro-ministro, e que a dimensão dessa vitória daria a ele uma grande vantagem política. “O ímpeto é tudo na política, e Andy Burnham tem isso no momento”, disse ele.

Burnham tem se apresentado como alguém que oferece uma ruptura mais significativa em relação ao governo atual. Ele defendeu mudanças fundamentais nas políticas econômica, migratória, educacional e industrial do Reino Unido, rejeitou o que descreve como um modelo econômico fracassado de “gotejamento” e propôs um novo programa de desenvolvimento industrial para o norte da Inglaterra.

Pesquisas indicam que ele detém uma liderança expressiva entre os membros do Partido Trabalhista. Um levantamento da YouGov publicado em maio revelou que 47% dos entrevistados apontaram Burnham como sua primeira opção para a liderança. Em uma disputa hipotética contra Wes Streeting, ex-secretário de Saúde, Burnham liderava com 80% das intenções de voto contra 10%.

Streeting declarou em 16 de maio, dois dias após renunciar ao cargo, que concorreria caso uma eleição para a liderança fosse realizada, sendo considerado o adversário mais provável de Burnham.

No entanto, nem todos no partido apoiam uma transferência de poder sem disputa. A rede de televisão britânica ITV noticiou no domingo que o secretário de Negócios e Comércio, Peter Kyle, se opôs à ideia de permitir que Burnham assumisse o cargo sem um processo eleitoral formal. Kyle argumentou que o Partido Trabalhista deveria aproveitar a eleição para a liderança para debater a melhor forma de conter o Reform UK, garantindo, ao mesmo tempo, que a transição de Starmer para um novo primeiro-ministro ocorresse de maneira ordenada.

Outros possíveis candidatos incluem a ex-vice-primeira-ministra Angela Rayner, o secretário de Energia Ed Miliband e a secretária do Interior Shabana Mahmood.

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