Profissionais de saúde acompanham um paciente com ebola até um centro de tratamento da doença em Mongbwalu, província de Ituri, República Democrática do Congo, em 20 de junho de 2026. (Xinhua)
Adis Abeba, 24 jun (Xinhua) – Conforme o surto do vírus ebola da cepa Bundibugyo continua se espalhando pela República Democrática do Congo (RDC) e por Uganda, com casos já ultrapassando a marca de 1.000 e um número crescente de mortes, desafios operacionais complexos geram receios de aumento da transmissão.
Diante de uma série de restrições operacionais críticas, incluindo insegurança, intenso deslocamento e movimentação populacional, falta de uma vacina licenciada específica para a cepa e escassez de financiamento, especialistas e organizações de saúde alertam que conter essa emergência regional de saúde pública exige mobilização imediata e solidariedade coordenada por parte do continente africano e da comunidade global.
EXPANSÃO RÁPIDA
Na RDC, o surto atingiu um patamar crítico no domingo, quando as autoridades de saúde relataram 1.003 casos e 254 mortes. Os dados mais recentes, divulgados na terça-feira, mostram que o número de casos subiu para 1.094 e o de mortes para 277, com 387 pacientes atualmente em isolamento ou recebendo tratamento e 115 recuperados.
Uganda, que faz fronteira com a província de Ituri, na RDC, registrou 20 casos e duas mortes, segundo o Ministério da Saúde ugandense.
Além das duas nações afetadas, outros 11 países do continente foram classificados como de alto risco de serem atingidos: Sudão do Sul, Ruanda, Quênia, Zâmbia, República Centro-Africana, Tanzânia, Etiópia, Angola, República do Congo, Burundi e Somália.
Segundo os Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças (CDC África), a província de Ituri, no leste da RDC, permanece como o epicentro do surto, concentrando mais de 90% dos casos da doença. O aumento acentuado no número de casos e a expansão geográfica estão sobrecarregando a capacidade de gestão clínica, à medida que os sistemas de saúde sofrem para lidar com a chegada de pacientes.
A situação do surto é agravada pelo seu impacto nas equipes médicas da linha de frente, incluindo infecções entre profissionais de saúde e ataques a instalações sanitárias, cenário que o CDC África descreveu como "uma emergência dentro de outra".
Embora o aumento dos casos apresente uma realidade sombria, alguns aspectos técnicos da resposta mostraram melhorias positivas. Especialistas do CDC África observaram que a capacidade de testes laboratoriais foi significativamente ampliada, reduzindo o tempo de processamento de amostras, que antes levava de cinco a oito dias, para um prazo de 24 horas.

Foto aérea tirada por drone em 23 de junho de 2026 mostra um cemitério perto de Bunia, na província de Ituri, República Democrática do Congo. (Xinhua)
LIMITAÇÕES CRÍTICAS
No entanto, desafios operacionais críticos aumentam receios de que o surto saia de controle. Em entrevista recente à Xinhua, o diretor-geral do CDC África, Jean Kaseya, disse que uma limitação crítica é a ausência de uma vacina licenciada ou de tratamento terapêutico para a cepa Bundibugyo.
Ao contrário de outras cepas do ebola, não é possível adotar estratégias de vacinação em anel, o que obriga os esforços de contenção a depender inteiramente de medidas clássicas de saúde pública: detecção precoce, isolamento rápido, rastreamento de contatos, assistência segura, prevenção e controle de infecções, confiança da comunidade e coordenação sólida.
Com apenas cerca de 12% dos contatos esperados sob acompanhamento ativo atualmente, o representante do CDC África, Wessam Mankoula, disse que a lacuna no rastreamento de contatos é outra limitação operacional crítica, agravada pelo intenso movimento transfronteiriço e pela falta de financiamento.
Yap Boum II, chefe da divisão de preparação e resposta a emergências do CDC África, disse que o surto de ebola está sobrecarregando o sistema de saúde da RDC, que já está sob pressão devido a conflitos, deslocamentos populacionais e múltiplas emergências sanitárias.
"Estamos falando de um ambiente muito complexo, com mais de 900.000 pessoas deslocadas e refugiados. Já existia um desafio humanitário antes da chegada do ebola", disse Boum, enfatizando a importância vital de integrar intervenções humanitárias e ações essenciais de saúde pública.
O CDC África também expressou preocupação com a capacidade inadequada para a realização de sepultamentos seguros, contando atualmente com apenas 84 profissionais disponíveis, frente a um mínimo necessário de 540 nas áreas afetadas.
Para conter a propagação regional da cepa Bundibugyo, as partes interessadas africanas e internacionais precisam tomar medidas urgentes para enfrentar essas limitações, reforçar a segurança na linha de frente e mobilizar melhor os recursos para esforços de contenção em larga escala.

Profissionais de saúde acompanham um paciente com ebola até um centro de tratamento da doença em Mongbwalu, província de Ituri, República Democrática do Congo, em 20 de junho de 2026. (Xinhua)
SOLIDARIEDADE GLOBAL NECESSÁRIA COM URGÊNCIA
Apesar das melhorias operacionais, conter o surto exige uma cooperação intra-africana mais robusta e investimentos contínuos em institutos nacionais de saúde pública, operações locais de emergência, vigilância genômica e sistemas de saúde comunitária, a fim de fortalecer o sistema de segurança sanitária da África.
"A agenda de segurança sanitária da África deve ser liderada por instituições africanas e apoiada por parceiros que se alinhem às prioridades nacionais, ajam com rapidez e invistam em sistemas que permaneçam após o fim da emergência", disse Kaseya.
Ao defender uma ação global rápida e coordenada, o chefe do CDC África também ressaltou que os parceiros globais têm um "papel fundamental a desempenhar" na luta contínua da África contra o surto. "A África precisa de financiamento adequado, recursos flexíveis para emergências, apoio diagnóstico, equipamentos de proteção individual, insumos para assistência clínica, logística, pessoal capacitado, capacidade laboratorial, acesso seguro e apoio às comunidades e aos profissionais de saúde da linha de frente".
No início deste mês, o CDC África e a Organização Mundial da Saúde lançaram, em conjunto, um plano continental de resposta e preparação, com o objetivo de arrecadar 518 milhões de dólares americanos para um período de seis meses. No entanto, permanece uma lacuna significativa entre os compromissos políticos e o financiamento efetivamente disponibilizado no terreno.
Em uma reunião de alto nível sobre o surto, liderada pela União Africana na semana passada, doadores prometeram 910 milhões de dólares para combater a doença. Contudo, o CDC África informou que, até quinta-feira, apenas 90 milhões de dólares do valor total prometido haviam sido oficialmente liberados para as nações afetadas e para os parceiros operacionais de resposta.
Destacando que o financiamento antecipado representa o investimento em saúde pública com melhor relação custo-benefício, o CDC África pediu a rápida liberação dos recursos prometidos antes que o surto se transforme em uma crise regional de proporções muito maiores.
Além do financiamento, autoridades de saúde e especialistas pedem maior solidariedade política regional para fortalecer os esforços de resposta e preparação nos dois países afetados, em outros 11 países de alto risco e além dessas fronteiras.
Uma coordenação regional aprimorada é essencial para conciliar a triagem nas fronteiras, compartilhar dados epidemiológicos, gerenciar fluxos populacionais e proteger profissionais de saúde que atuam em áreas fronteiriças, disseram eles, aconselhando os parceiros internacionais a evitar restrições de viagem ou comércio contra países africanos que sejam "desprovidas de base científica e contraproducentes".


