Foto tirada em 7 de junho de 2026 mostra o Monumento da Paz com o Capitólio dos EUA ao fundo, em Washington, D.C., Estados Unidos. (Xinhua/Li Rui)
Especialistas apontam que, com base nos detalhes divulgados até o momento, o acordo não resolve fundamentalmente as antigas divergências entre os Estados Unidos e o Irã sobre questões como o programa nuclear, nem reduz a desconfiança mútua entre os dois lados.
Teerã/Washington, 16 jun (Xinhua) -- Os Estados Unidos e o Irã reivindicaram a vitória após assinarem digitalmente, na segunda-feira, um memorando de entendimento (MoU, na sigla em inglês) com o objetivo de acabar com o conflito de três meses. No entanto, ambos os lados continuam apresentando versões conflitantes sobre o conteúdo do documento, já que o texto permanece não publicado.
O Irã classificou o acordo como um triunfo sobre Washington e Israel. "O inimigo que atacou para alcançar seus objetivos malignos foi derrotado em todos os seus objetivos, e a República Islâmica do Irã obteve grandes vitórias na guerra", disse o vice-ministro das Relações Exteriores, Kazem Gharibabadi, em declarações transmitidas pela televisão estatal na segunda-feira.
O presidente dos EUA, Donald Trump, elogiou o acordo por restaurar a estabilidade dos mercados globais. "Acho que muitas coisas boas vão acontecer no Oriente Médio agora. E, muito importante, o preço do petróleo está despencando, e o mercado de ações está disparando como um foguete hoje", disse Trump, segundo telejornal americano PBS News, na segunda-feira, em Évian, França, onde está sendo realizada a Cúpula de Líderes do G7.
A reabertura do Estreito de Ormuz e a suspensão das operações militares em múltiplas frentes foram anunciadas por ambos os lados, embora detalhes importantes ainda estejam em disputa. Entre as questões não resolvidas está a taxa proposta pelo Irã para a travessia de navios pelo Estreito de Ormuz.
Trump insistiu na segunda-feira que o estreito não terá pedágio e que "não há discussão sobre isso". O vice-presidente dos EUA, JD Vance, disse em entrevista ao canal americano de notícias CNBC na segunda-feira que a expectativa é de que o estreito seja aberto "sem pedágio a longo prazo".
No entanto, a agência de notícias semioficial iraniana Fars informou na segunda-feira que o Irã aceitará a passagem de navios pelo estreito gratuitamente apenas por 60 dias, após os quais o país pretende fornecer serviços de segurança, marítimos, ambientais e de seguro para as embarcações que o atravessarem e usar a receita para seu desenvolvimento econômico.
Diferenças também persistem em relação ao Líbano. Ambos os lados anunciaram um cessar-fogo imediato em todas as frentes, mas ainda não está claro se o acordo exigirá que as forças armadas israelenses se retirem das grandes áreas do sul do Líbano que ocupam atualmente.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, disse na segunda-feira que o fim da guerra no Líbano é parte "inseparável" do MoU finalizado. No entanto, autoridades americanas argumentaram que a retirada israelense do sul do Líbano não era uma condição para o acordo e que Israel poderia responder a ataques do Hezbollah. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, declarou na segunda-feira que Israel não retiraria suas forças do território libanês.
Sobre o programa nuclear iraniano, ambos os lados reconheceram o compromisso do Irã em não desenvolver armas nucleares, mas apresentaram reivindicações divergentes sobre o descarte do urânio altamente enriquecido do país.
Em uma publicação na plataforma Truth Social no sábado, Trump sugeriu que os Estados Unidos trabalharão com o Irã para remover o urânio enriquecido em um "momento adequado".
Teerã, contudo, tem ficado firme em garantir seu direito ao enriquecimento em seu próprio território e se opõe a quaisquer propostas de transferência de urânio enriquecido para fora do Irã.
Teerã insiste que a única maneira aceitável de lidar com seu urânio altamente enriquecido será diluí-lo em território iraniano, disse o ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araghchi, em entrevista à emissora estatal iraniana IRIB na sexta-feira.
Ambos os lados também fazem alegações contraditórias sobre o acordo em relação às questões de ativos congelados e sanções econômicas contra o Irã.

Foto tirada em 11 de abril de 2026 mostra vista externa do centro de imprensa para as negociações entre os Estados Unidos e o Irã em Islamabad, Paquistão. (Xinhua/Wang Shen)
Baghaei disse na segunda-feira que a liberação dos ativos congelados do Irã e a assistência para a reconstrução dos danos causados pela guerra estavam entre as disposições incluídas no MoU. Os Estados Unidos liberarão 12 bilhões de dólares americanos em ativos congelados para o Irã antes do início das negociações técnicas, segundo a agência de notícias semioficial iraniana Mehr.
Washington rejeitou publicamente a alegação. "O Irã não receberá dinheiro em espécie no acordo", disse Trump em entrevista ao jornal americano The Wall Street Journal no domingo.
"O Irã não receberá um centavo a menos que cumpra suas obrigações, e o dinheiro de que estamos falando é fundamentalmente o alívio das sanções", disse Vance à emissora americana ABC na segunda-feira.
Com grandes questões ainda sem resposta, o verdadeiro desafio do acordo começa após sua assinatura formal na Suíça, na sexta-feira, dando início a 60 dias de negociações técnicas.
Especialistas apontam que, com base nos detalhes divulgados até o momento, o acordo não resolve fundamentalmente as antigas divergências entre os Estados Unidos e o Irã sobre questões como o programa nuclear, nem reduz a desconfiança mútua entre os dois lados.
"O acordo divulgado parece se concentrar em questões urgentes necessárias para interromper a escalada... Assuntos mais controversos foram adiados para negociações futuras", disse Aram Kiwan, analista político e colunista árabe-israelense, observando que considera o cenário mais provável um longo processo de negociação em fases.
"Neste momento, é difícil falar em paz abrangente", disse Suleiman Basharat, analista político palestino. "Um único acordo pode ajudar a reduzir as tensões, mas é improvável que, por si só, garanta uma paz duradoura em todo o Oriente Médio".


