Manifestantes realizam concerto durante um protesto contra o Festival Eurovisão da Canção em Viena, Áustria, em 15 de maio de 2026. O Festival Eurovisão da Canção 2026 terminou com sua grande final em Viena no sábado, mas o 70º aniversário do evento foi ofuscado pela sua crise mais profunda, com cinco países boicotando a competição devido à participação de Israel, expondo as crescentes fissuras na Europa. (Xinhua/He Canling)
Viena, 17 mai (Xinhua) -- O Festival Eurovisão da Canção 2026 terminou com sua grande final em Viena, no sábado, mas o 70º aniversário do evento foi ofuscado pela sua crise mais profunda, com cinco países boicotando a competição devido à participação de Israel, expondo as crescentes fissuras na Europa.
A Bulgária conquistou o primeiro lugar, mas o momento mais dramático ocorreu quando a canção de Israel, mal classificada pelos júris, disparou para o primeiro lugar após a votação do público, provocando uma enorme onda de vaias.
Fundado em 1956 como uma iniciativa do pós-guerra com o objetivo de unir a Europa através do entretenimento, o maior evento de música ao vivo do mundo encontra-se agora no centro de uma das disputas geopolíticas mais divisivas do continente. Espanha, Irlanda, Holanda, Eslovênia e Islândia se retiraram da competição deste ano, marcando uma ruptura sem precedentes.
Pela primeira vez na história da Eurovisão, várias emissoras, incluindo a emissora estatal espanhola RTVE, se recusaram não só a enviar concorrentes, como também a transmitir o evento, um golpe financeiro e simbólico significativo, dado o estatuto da Espanha como um dos "Cinco Grandes" contribuintes da União Europeia de Radiodifusão (UER).
"Um concurso fundado na união, na paz e na conexão nunca se sentiu tão dividido", escreveram os fundadores do popular podcast irlandês sobre a Eurovisão, Eirevision, nas redes sociais em dezembro de 2025, anunciando a suspensão da transmissão.
Mas nem todos desistiram. A Bulgária, a Moldávia e a Romênia regressaram depois de terem faltado ao evento por razões artísticas ou financeiras nos últimos anos. Ainda assim, o número de participantes, 35, foi o mais baixo desde 2003.
QUANDO A GUERRA TRANSFORMA A MÚSICA EM POLÍTICA
Os protestos contra o que os críticos chamaram de duplo padrão da UER em relação a Israel marcaram o concurso deste ano, desde a cerimônia de abertura até à grande final. Milhares de pessoas participaram de manifestações em diversas cidades europeias, incluindo Viena, Bruxelas, Londres e Dublin, enquanto breves interrupções também ocorreram no local do evento durante a semifinal e a final.
No sábado, cerca de 3.000 manifestantes marcharam contra a participação de Israel em Viena. "A Eslovênia exibiu documentários sobre a Palestina em vez da Eurovisão, isso é um forte ato de solidariedade", disse Natasha, uma manifestante local, à Xinhua. "Todos os países deveriam se posicionar contra o genocídio".
A controvérsia surgiu meses antes da primeira nota ser cantada. Em dezembro de 2025, depois que a UER se recusou a banir Israel, alegando que a emissora KAN não havia violado as regras do concurso, as críticas sobre a hipocrisia se intensificaram rapidamente. A Irlanda, detentora do recorde de vitórias na Eurovisão, juntamente com a Suécia, viu sua emissora pública, a RTE, considerar a participação contínua "inaceitável, dada a perda de vidas em curso e terrível em Gaza".
"Diante de uma guerra ilegal e também de um genocídio, o silêncio não é uma opção. E não podemos ficar indiferentes ao que continua acontecendo em Gaza e no Líbano", disse o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, em uma mensagem de vídeo publicada na sexta-feira na rede social X, acrescentando que a Espanha escolheu estar "do lado certo da história".
A oposição também veio do próprio setor cultural. Mais de 1.100 músicos e trabalhadores da cultura assinaram uma carta aberta acusando a UER de hipocrisia, dizendo que suas respostas "desfizeram qualquer ilusão da alegada ‘neutralidade’ da Eurovisão".
UNIDADE CONTRA DIVISÃO NA EUROVISÃO
A personalidade da TV britânica e empresária musical Sharon Osbourne disse que as tentativas de excluir israelenses do cenário internacional "distorcem a arte, transformando-a em uma ferramenta de divisão e corroem a humanidade compartilhada que as artes deveriam preservar".
Mas os críticos questionaram se a Eurovisão ainda pode dizer representar os valores europeus. A eurodeputada irlandesa, Cynthia Ni Mhurchu, disse que permitir que Israel competisse em meio à crise humanitária em Gaza estava corroendo os próprios valores europeus nos quais o concurso foi fundado.
"É muito problemático porque cria uma normalização da violência que está acontecendo. Dizem que a Eurovisão não é algo político, mas eles politizaram", disse a atriz belga, Katrien De Ruysscher, co-organizadora de um evento cultural alternativo, "Unidos pela Palestina", realizado em Bruxelas.
O conflito também se manifestou em espaços cotidianos. O dono de um café na cidade holandesa de Den Bosch disse à imprensa local que se viu preso entre as pressões contraditórias de uma Europa profundamente dividida: exibir o concurso em seu café poderia ser interpretado como ignorar Gaza, enquanto não exibir a apresentação de Israel corria o risco de ser denunciado como antissemita.
As opiniões sobre o futuro do Festival Eurovisão da Canção variam bastante. Para Dean Vuletic, historiador e autor do livro "Postwar Europe and the Eurovision Song Contest" ("A Europa do Pós-Guerra e o Festival Eurovisão da Canção", em tradução livre), o concurso já sobreviveu a crises políticas anteriores e "sempre sobreviveu".
Mas para alguns, sobreviver não basta. ‘É preciso voltar aos verdadeiros valores do concurso, que eram os do pós-Segunda Guerra Mundial: unir os países. E agora os países estão todos divididos. Portanto, não acredito que, em sua forma atual, ele continuará existindo", acrescentou De Ruysscher.
"Cantar conecta as pessoas", disse Herbert, um manifestante austríaco, à Xinhua, do lado de fora do local da grande final, no sábado. "Queremos um futuro na Europa com pessoas vivendo juntas em harmonia".

Manifestantes realizam concerto durante um protesto contra o Festival Eurovisão da Canção em Viena, Áustria, em 15 de maio de 2026. O Festival Eurovisão da Canção 2026 terminou com sua grande final em Viena no sábado, mas o 70º aniversário do evento foi ofuscado pela sua crise mais profunda, com cinco países boicotando a competição devido à participação de Israel, expondo as crescentes fissuras na Europa. (Xinhua/He Canling)

Manifestantes seguram bandeiras nacionais do Irã em um protesto contra o Festival Eurovisão da Canção em Viena, Áustria, em 16 de maio de 2026. O Festival Eurovisão da Canção 2026 terminou com sua grande final em Viena no sábado, mas o 70º aniversário do evento foi ofuscado pela sua crise mais profunda, com cinco países boicotando a competição devido à participação de Israel, expondo as crescentes fissuras na Europa. (Xinhua/He Canling)

O israelita,, Noam Bettan (esquerda), canta na grande final do Festival Eurovisão da Canção 2026 em Viena, Áustria, em 16 de maio de 2026. O Festival Eurovisão da Canção 2026 terminou com sua grande final em Viena no sábado, mas o 70º aniversário do evento foi ofuscado pela sua crise mais profunda, com cinco países boicotando a competição devido à participação de Israel, expondo as crescentes fissuras na Europa. (Xinhua/He Canling)

A búlgara, Dara (centro), ergue troféu na cerimônia de entrega de prêmios na grande final do Festival Eurovisão da Canção 2026 em Viena, Áustria, em 16 de maio de 2026. O Festival Eurovisão da Canção 2026 terminou com sua grande final em Viena no sábado, mas o 70º aniversário do evento foi ofuscado pela sua crise mais profunda, com cinco países boicotando a competição devido à participação de Israel, expondo as crescentes fissuras na Europa. (Xinhua/He Canling)

A búlgara, Dara (centro), dança na grande final do Festival Eurovisão da Canção 2026 em Viena, Áustria, em 16 de maio de 2026. O Festival Eurovisão da Canção 2026 terminou com sua grande final em Viena no sábado, mas o 70º aniversário do evento foi ofuscado pela sua crise mais profunda, com cinco países boicotando a competição devido à participação de Israel, expondo as crescentes fissuras na Europa. (Xinhua/He Canling)

O israelita, Noam Bettan (direita), canta na grande final do Festival Eurovisão da Canção 2026 em Viena, Áustria, em 16 de maio de 2026. O Festival Eurovisão da Canção 2026 terminou com sua grande final em Viena no sábado, mas o 70º aniversário do evento foi ofuscado pela sua crise mais profunda, com cinco países boicotando a competição devido à participação de Israel, expondo as crescentes fissuras na Europa. (Xinhua/He Canling)


