Façanha da engenharia e uma vida inteira de amizade - História por trás da Barragem de Lagdo, construída pela China em Camarões

15 de maio de 20265 min de leitura
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Façanha da engenharia e uma vida inteira de amizade - História por trás da Barragem de Lagdo, construída pela China em Camarões

Foto aérea tirada por drone em 2 de maio de 2026 mostra a Barragem de Lagdo em Lagdo, região Norte de Camarões. (Xinhua/Wang Ze)

Por gerações, os moradores de Lagdo viveram em dificuldades e pobreza, mas suas vidas mudaram completamente depois que a barragem transformou a aldeia isolada em uma cidade movimentada, disse Amina Mohammed Sani.

Por Arison Tamfu e Wang Ze

Yaoundé, 13 mai (Xinhua) -- Para o mundo, a Barragem de Lagdo, na região Norte de Camarões, é uma façanha da engenharia da década de 1970, uma verdadeira prova das relações entre Camarões e China.

Para Oumarou Bakary, é a estrutura sobre a qual toda a sua vida foi construída.

No início da década de 1970, as ruas empoeiradas de Garoua, capital da região Norte, ofereciam pouca esperança a Bakary, que sentia o peso de uma economia estagnada e o calor implacável do Sahel, onde a vida era um ciclo de espera pela chuva que muitas vezes chegava tarde demais ou ia embora cedo demais.

Em Lagdo, localizada a cerca de 55 km ao sul de Garoua, engenheiros chineses haviam chegado e montado acampamento para construir uma barragem no rio Benue.

Bakary não hesitou em ir para Lagdo em busca de emprego. Ele fez as malas, trocando as ruas familiares de Garoua por uma viagem poeirenta rumo a um projeto que redefiniria o norte de Camarões.

Lá, foi contratado para integrar uma equipe local que trabalhava ao lado de engenheiros chineses.

"Havia 800 trabalhadores chineses e 2.500 camaroneses", relembrou Bakary.

Inicialmente, ele foi designado para a equipe de topografia, encarregado de auxiliar os topógrafos chineses que mapeavam os 308 metros de extensão da barragem.

"No começo, foi uma experiência diferente, mas aprendi bem", disse Bakary.

À medida que o projeto avançava para a fase de construção pesada, ele foi transferido do campo para a oficina mecânica e elétrica.

Foi lá que ele teve seu primeiro contato com o torno.

Sob a orientação de mestres de obras chineses, ele participou ativamente da construção da barragem, adquirindo uma disciplina técnica que as escolas tradicionais da região Norte não ofereciam na época.

"Trabalhávamos dia e noite. Os chineses não descansavam. Os chineses não brincam em serviço", disse ele. "Os chineses não gostam de erros".

"Com os chineses, você precisa ser perfeito", disse Bakary.

À medida que a construção chegava ao fim, muitos trabalhadores locais se preparavam para retornar às suas aldeias, mas Bakary ficou.

Seus mentores chineses reconheciam seu valor. Eles o recomendaram formalmente à Companhia Nacional de Eletricidade de Camarões, onde foi contratado como um dos primeiros técnicos camaroneses permanentes para gerenciar a recém-concluída usina hidrelétrica de Lagdo.

"Durante o levantamento topográfico e a construção da barragem, trabalhei de 1974 a 1984. Após a conclusão da barragem, fui contratado para trabalhar na companhia de eletricidade de Camarões, onde permaneci de 1984 a 2017", disse Bakary.

Ele nunca mais voltou para Garoua.

Bakary, 69 anos, agora é avô de 12 netos em Lagdo, onde sua casa, feita de barro seco ao sol, vibra com o ritmo constante de uma geladeira e o brilho suave de uma televisão, luxos que eram fantasias quando ele pegou uma pá pela primeira vez.

"Minha casa é iluminada por uma lâmpada constante alimentada pela usina de 72 megawatts que ajudei a construir", disse ele.

Por gerações, os moradores de Lagdo viveram em dificuldades e pobreza, mas suas vidas mudaram completamente depois que a barragem transformou a aldeia no meio do mato em uma cidade movimentada, disse Amina Mohammed Sani.

Foto tirada em 28 de março de 2026 mostra uma rotatória em Yaoundé, Camarões. Situada na região montanhosa do centro de Camarões, a uma altitude de 750 metros, Yaoundé é a capital e a segunda maior cidade do país. (Xinhua/Liu Qiong)

"Agora, estou radiante porque as estradas estão em boas condições e as escolas também são boas. Temos eletricidade e um hospital. Meus netos estudam bem", disse Amina em seu idioma local, com a tradução feita por seu filho, Buhari Ahmed. Ela não se lembrava da idade exata, mas aparentava ter pouco mais de 80 anos.

"Os chineses nos trouxeram vida e alegria", disse a avó de mais de 100 netos.

A barragem de concreto de Lagdo, com 40 metros de altura, o primeiro projeto hidrelétrico da China em Camarões, fornece irrigação e energia hidrelétrica para três regiões no norte do país.

A conclusão da barragem em 1982 trouxe mais do que apenas eletricidade.

Trouxe o reservatório de Lagdo, um milagre de 586 quilômetros quadrados que permaneceu mesmo depois que as chuvas pararam, disse Ahmadou Bivoung, diretor de produção da estatal Companhia de Eletricidade de Camarões.

"É um projeto muito bem-sucedido, resultado da cooperação sino-camaronesa. O trabalho foi executado de forma excelente e, quando monitoramos o desempenho da barragem, ela está entre as melhores do mundo em termos de estabilidade. O trabalho foi feito de forma excepcional, as máquinas estão bem calibradas", disse Ahmadou.

"De modo geral, o desenvolvimento local e social depende, de fato, dessa infraestrutura. Todo o desenvolvimento econômico em Lagdo, pescadores e empresas, se baseia no desenvolvimento dessa estrutura. As indústrias que se desenvolvem em Garoua, no Extremo Norte ou na região de Adamawa dependem da Barragem de Lagdo como principal fonte de abastecimento", acrescentou ele.

Bakary, o jovem de Garoua que tinha talento para consertar coisas, mas não tinha formação formal, hoje se orgulha da sua contribuição e está satisfeito com o que aprendeu. Mas ainda sente tristeza pelos quatro trabalhadores chineses que morreram durante a construção. "Foi triste, muito triste. Um grande sacrifício".

"Sentimos falta de todos os chineses que trabalharam conosco", disse ele.

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